O que os turbantes tem a ver com a cultura africana?

O que os turbantes tem a ver com a cultura africana?

O turbante é para muitos símbolo de cultura e beleza negra, mas outros povos e culturas também utilizam esse acessório repleto de significados e funções

A resposta é nada. Os turbantes não tem nada a ver com a cultura africana. Vamos falar sobre turbantes? Você sabia que esses turbantes que andam em alta são de inspiração retrô, década de 1920? E que eles surgiram lá pelos lados da Ásia?


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Homem sikh – O sikhismo ou siquismo é uma religião monoteísta fundada em fins do século XV no Punjabe (região dividida entre o Paquistão e a Índia) pelo Guru Nanak (1469-1539)

São turbantes inspirados na tradição hindu, mogul, sikh e nos turcos otomanos. A moda de usar turbantes entre pessoas brancas surgiu por volta do início do século 18, finalzinho do 17. Isso aconteceu porque os europeus passaram a ter um grande contato com o “luxo” do Império Otomano e das cortes da Índia. Mas eles existem há muito mais tempo. Sabe-se que existia antes do ano 570DC, ou seja, antes do nascimento de Maomé e da fé islâmica. E nela o turbante tem uma função religiosa.


Moça com brinco de pérola - Johannes Vermeer


Os antigos usavam como símbolo de status. Era um costume caro e os turbantes não eram usados para reverenciar a cultura de onde tinha saído, mas pra ostentar, assim como o sujeito do século 16 ostentava um fardo de canela da china. Era exótico e remetia ao luxo. A obra “Moça com brinco de pérola” do pintor holandês Johannes Vermeer ilustra bem isso. Depois do século 17, a moda só cresceu, mas ninguém, absolutamente ninguém, na Europa dos anos de 1920 (e em todo mundo ocidental, que acompanhava a moda europeia), usava um turbante ou qualquer outro acessório de inspiração africana.

Dizer que usar turbantes é apropriação cultural relativa à cultura africana (O que seria isso, aliás? A África é imensa, tem muitas culturas dentro dela e a maioria não usa turbante, nem tem dreadlock) é um imenso equívoco.

Os grupos e etnias africanas que usam turbantes também adotaram o acessório na mesma linha que os europeus: por apropriação cultural relativa, dessa vez, aos califados do Oriente Médio e ao Império Mali. Usava-se para “ficar na moda”, pra parecer chique e principalmente, pra se adequar à cultura islâmica, que foi muito influente na África como um todo.



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Os povos africanos originalmente usavam vários ornamentos de cabeça, mas a maioria é mais parecida com toucas e chapéus do que com turbantes. Suponhamos que a gente deva pensar em termos de identidade cultural, e que mesmo o turbante sendo um acessório assimilado pelos africanos, ele representa, de certa forma, a identidade dos afrodescendentes, por ter sido usado por seus ancestrais. Esse é o caso dos EUA, não o do Brasil. Se você pegar um mapa ilustrativo das rotas do tráfico negreiro, vai ver que os negros que foram ser escravos nos EUA eram em sua esmagadora maioria, dos países que haviam integrado o Império Mali e de suas regiões de influência direta. Assim, se você usa um turbante nos EUA, ele é realmente muito simbólico e denota sua origem étnica (que o diga Malcolm X, que travou uma luta tremenda pra resgatar suas origens de muçulmano negro).

Esses mesmos negros vieram, em quantidade muito menor, aportar no nordeste brasileiro, onde eram chamados de “Malês“, e ostentavam seus turbantes não por serem africanos, mas por serem muçulmanos orgulhosos de sua fé. Não era comum que outros grupos étnicos escravizados o utilizassem. Na realidade, o uso dos turbantes era mesmo comum entre as mulheres escravas, de todas as etnias, mas por um motivo bem diferente do qual vocês pensam.


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Negra com turbante fotografada por Albert Henschel (c.1870)

Elas usavam turbantes para denotar status social inspiradas pelas grandes damas africanas da costa atlântica, que usavam o turbante como símbolo de opressão e superioridade social.

Lembrem que os africanos começaram a usar turbantes e vestes tipicamente associadas ao Islã, pra demonstrar status e coerência com a nova religião. As mulheres africanas do século 18 para o 19 levaram esse costume ao extremo. Nunca ninguém na costa atlântica da África usou tanto turbante quanto nesse período. Foi aí que a moda realmente pegou.


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Mulheres usando o ojá

Excluindo-se o ojá, que não é um turbante, mas uma faixa, dos iniciados nos ritos Youruba (e que ninguém usa na rua), os turbantes usados pelas damas africanas serviam pra diferenciá-las das demais mulheres, de posição inferior à delas. Essas damas costumavam ter vários maridos e, entre eles, comerciantes e nobres europeus com os quais tinham filhos e que lhes garantiam poder econômico, além do poder político que elas já possuíam por linhagem.

Para demonstrarem seu status umas pras outras (e também pra população branca da época, que sabia do seu poder), as escravas usavam turbantes de inspiração árabe, mangas bufantes e saias longas soltas (Como as roupas típicas das baianas) pra emular as vestes da nobreza africana da costa atlântica, que assim como a nobreza europeia, via nos turbantes e trajes de inspiração árabe/muçulmana um modo de ser visto como chic e exótico.


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Nada tinha a ver com identificar etnias ou com símbolo de resistência. Era a mais pura apropriação cultural (no mais amplo sentido do termo), usada pela elite e reproduzida pelas classes mais baixas. Exatamente como hoje em dia, quando você compra uma batinha indiana porque a atriz famosa está usando na novela.

Na época, não havia nenhuma história de heroísmo e luta ligada ao uso do turbante. Durante a Segunda Guerra Mundial o turbante era usado para esconder  os cabelos maltratados. E hoje são usados pelos negros por conta do Movimento do Orgulho Negro iniciado nos EUA em 1960, como uma forma de afirmação.

O mesmo acontece com os dreads. Na África, muito pouca gente usa dread. Esse é um costume de afrocaribenhos, que por sua vez o faz por influência judaico/cristã, relacionada com a igreja ortodoxa etíope, que não é originalmente africana, mas do Oriente Médio. Na África, pasmem, a maioria do que se pensa serem dreads e tranças, são perucas. Sim, perucas!


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Em resumo, se formos analisar de onde veio cada item de vestuário que a gente usa hoje em dia, sejamos nós da etnia que formos, veríamos muitas curiosidades como a calça que é de origem celta, a meia é coisa de francês, saia plissada é coisa de (homem) escocês e tênis é invenção estadunidense. 


Dent de Man



Lookbook da marca Dent de Man

Se formos abordar a apropriação cultural em relação à traços genuinamente pertencentes à cultura afro pós diáspora (que é quando os negros passam a se reconhecer como negros e criam a identidade étnica de negro, perpassando as etnias originais africanas), precisaríamos começar a reclamar dos brancos no samba (Maldito Adoniran, maldito Germano Mathias, que roubaram a identidade cultural!), do RAP, reclamar de gente branca que come acarajé, inhame, de gente branca que dança/canta funk, soul, blues, R&B… mas isso não acontece e nem deveria. A cultura não é estática, imóvel. A África atual, inclusive, intercambia culturalmente elementos de vestuário ocidental como o terno, a gravata, em releituras que a maioria das pessoas acha bem legal.

E temos outras muitas releituras que se apropriaram do turbante mas isso já é uma outra história.


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Sapeurs (Society of Ambianceurs and Persons of Elegance), os homens mais elegantes do Congo

Bibliografia:
– História da Moda; SABINO, Marco (2010)
– Dicionário da Moda; SABINO, Marco (2007)
– A História Mundial da Roupa; ANAWALT, Patricia Rieff (2011)

Fotos: Reprodução Google

Fonte: Wikipedia; Fernando Aguiar de Jesus

Sobre Redação ModaModaModa

O ModaModaModa surgiu por causa do espírito curioso junto ao interesse pelo mundo da moda. Contato: contato@modamodamoda.com.br

18 comentários

  1. Muito bom o artigo. Gostaria de deixar a minha contribuição com uma pesquisa que fiz sobre uma, das muitas histórias dos turbantes.

    https://www.facebook.com/andressa.fourquet/media_set?set=a.1065314793489015.1073741869.100000315134950&type=1

  2. Excelente artigo!

  3. Muito bem escrito e esclarecedor… Parabéns

  4. Muito interessante! Vcs poderiam compartilhas as referencias que utilizaram para escrever esse artigo? Grata!

  5. É assim que se faz ! mata cobra e mostra o pau, embasado e didático. Gostei muito, Parabéns.

  6. Quais as fontes que usaste?

  7. Nunca vi tanta gente de terno e gravata como em Moçambique e Sudão do Sul, assim como nunca vi tanta mulher de peruca (de todas as cores e estilos) no Quênia e na Tanzânia. Rodei bem a África e concordo inteiramente com o artigo. A mescla de culturas é o primeiro passo para o não-estranhamento do outro.

  8. Só para lembrar, o território chamado de oriente médio, antes de 1859, quando se iniciou a construção do canal de Suez, era África. Como resultado, não foi somente uma separação geográfica o que ocorreu, mas também, histórica e cultural. Pois, após o Canal, parte da África passou ser apresentada nos mapas como se fosse parte Ásia.

  9. Dani Maria Bassedone

    Bom dia amores e amoras…
    Que matéria gostosa de ler. E aprendi horrores com a leitura além de aguçar ainda mais a vontade de pesquisar. Show
    Amei saber.
    Abreijos de Borbolleta

    • Julia Salgueiro

      Que bom, Dani! A ideia é essa mesmo. Deixar a gente com vontade de ir atrás e descobrir mais coisas.
      Muito legal também ver comentários de outras pessoas acrescentando mais dados e coisas interessantes. A cultura é uma coisa muito rica e linda!

  10. O Terno e gravata veio dos ingleses que colonisou varios paises na Africa..

  11. Excelente artigo!
    Só pra acrescentar: tem gente que usa os ojás na rua sim. Em geral, são pessoas pertencentes às religiões de matriz africana (Candomblé: Ketu, Jeje Mahi, Angola) que estão cumprindo preceitos e precisam estar com a cabeça coberta. Ah, e nem todas as religiões de matriz africana são ritos YORUBÁ. Yorubá é uma língua falada no candomblé de nação Ketu.
    Espero ter ajudado!

  12. Marli Sales

    Temos que ter muito cuidado com o uso dos conceitos: ‘apropriação cultural’ não é ‘intercâmbio cultural’.

  13. Maria Gorete Batista

    Excelente artigo. Um aviso aos navegantes: é melhor angariar simpatizantes do que antipatizantes às nossas causas….

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